O American Dream brasileiro, observado de Miami
Vinte e cinco anos de Miami produziram um padrão recorrente sobre famílias brasileiras que cruzam a fronteira. O padrão se repete o suficiente para virar tese.
Por Fernanda Zomignani

A primeira família brasileira que representei em Miami chegou em 2002. Pai, mãe, dois filhos pequenos. Empresário do setor de agronegócio, vinda de Ribeirão Preto. O imóvel foi um apartamento de três quartos em Bal Harbour. O contrato fechou em quarenta dias, all-cash, sem broker do lado deles. Em vinte e cinco anos desde aquela transação, representei centenas de famílias brasileiras em padrões muito parecidos.
O que mudou nesses vinte e cinco anos não é o motivo da compra. É o detalhe das famílias e a estrutura da compra. O motivo permanece consistente, e a observação acumulada permite descrevê-lo com precisão. Este texto trata desse padrão.
O motivo permanece
Famílias brasileiras de alto patrimônio compram em Miami por uma combinação de cinco razões, ordenadas por frequência de mencionamento durante as primeiras conversas.
Primeira, dolarização do patrimônio. O imóvel é um instrumento de exposição a dólar com características de proteção que ativos financeiros não oferecem. Não é cotado diariamente, não é sujeito a volatilidade de marca-a-mercado, e produz renda potencial em moeda forte.
Segunda, segurança física da família. A discussão sobre segurança no Brasil escala em direção a famílias com filhos em idade escolar, especialmente em São Paulo, Rio, e capitais do Nordeste. Miami opera com índices de violência significativamente menores em bairros prime, e a infraestrutura de educação privada e escola internacional sustenta uma rotina familiar comparável à brasileira sem o componente de risco.
Terceira, educação dos filhos. A presença de escolas internacionais americanas com modelo curricular americano cria um caminho previsível em direção a universidades americanas. Em famílias com filhos entre dez e dezesseis anos, esse fator costuma ser o decisivo para a mudança de residência (não só de patrimônio).
Quarta, planejamento sucessório. A estrutura jurídica americana (LLCs, trusts, holdings offshore) oferece flexibilidade que a legislação sucessória brasileira não permite. Famílias que estruturam parte do patrimônio nos EUA conseguem segmentar herdeiros, definir vesting de ativos, e reduzir conflito sucessório com instrumentos contratuais que não existem no Brasil.
Quinta, diversificação cultural. A vivência internacional dos filhos, o acesso a um ecossistema profissional globalizado, e a possibilidade de uma carreira americana mantendo raízes brasileiras. Não é um fator econômico, mas é mencionado em quase toda primeira conversa.
O detalhe mudou
O perfil específico das famílias que chegam a Miami mudou ao longo desses vinte e cinco anos.
No início dos anos 2000, eram majoritariamente investidores puros do segmento de aluguel ou flip imobiliário. Compravam dois, três, cinco apartamentos em Brickell e Sunny Isles, com horizonte de cinco anos e meta de retorno percentual. A residência da família continuava no Brasil. Miami era exposição financeira.
Em 2008-2012, o perfil mudou para famílias do agronegócio em fase de planejamento sucessório. Tickets maiores, holding offshore, menos rotatividade. A residência da família ainda estava majoritariamente no Brasil, mas começava a aparecer o filho universitário morando em Miami estudando.
A partir de 2018-2019, e acelerando após 2020, o perfil predominante passou a ser famílias completas se mudando para Miami. Não exclusivamente, mas como tendência clara. O imóvel deixou de ser segunda residência sazonal e passou a ser residência primária. A escola dos filhos passou a ser Cushman, Carrollton, Ransom Everglades, ou Gulliver. O escritório do pai ou da mãe passou a ser em Brickell, frequentemente em escritórios de hedge fund, gestão de patrimônio, ou consultoria.
A estrutura da compra também mudou. Hoje, cerca de setenta por cento das famílias brasileiras que fecham com Z Group compram em estrutura corporativa em camadas, com holding offshore detendo LLC americana. Em 2002, esse percentual era inferior a vinte por cento. A diferença reflete uma indústria de assessoria binacional muito mais madura do que a de duas décadas atrás.
A cena do entregar das chaves
Existe uma cena que se repete o suficiente para virar previsível. A entrega das chaves, em geral em um apartamento de três a cinco quartos, em Brickell ou Coconut Grove. A família chega junto, frequentemente de manhã. Os pais entram primeiro, caminham pelo apartamento sem falar muito. Os filhos vão direto para os quartos.
Em algum momento dos primeiros vinte minutos, um dos dois pais para na janela com vista para a baía ou para o skyline, e fica em silêncio. O que vem depois desse silêncio varia.
Em algumas famílias, é uma observação prática sobre o que vai precisar trocar (a mobília, o ar condicionado, a pintura). Em outras, é uma frase sobre o filho que vai começar o ano letivo ali. Em outras, é silêncio mesmo, e a primeira coisa que dizem é o agradecimento.
Já vi várias variações dessa cena. Não me lembro de duas exatamente iguais. Mas o silêncio na janela é consistente.
Como Z Group lê esse padrão
Para uma corretora, esse padrão de duas décadas significa duas coisas práticas.
Primeira, a primeira conversa com uma família brasileira nova não é sobre o apartamento. É sobre o que vai existir do outro lado da mudança. Onde os filhos vão estudar, onde os pais vão trabalhar, qual rotina familiar substitui a rotina brasileira, quem vai cuidar das coisas do lado brasileiro que continuam existindo. Sem essas respostas, o imóvel certo não é identificável.
Segunda, a venda de um imóvel para uma família brasileira é o início de um relacionamento que dura quinze a vinte e cinco anos. O segundo apartamento (para um filho que cresce e quer morar separado), a casa de praia depois (em Bal Harbour ou Coconut Grove), o consultório do pai-médico, o escritório do filho-empreendedor. Z Group continua presente em cada uma dessas transições, e o efeito composto desse relacionamento explica setenta por cento da indicação que sustenta a prática hoje.
O American Dream brasileiro existe. Está sendo construído todos os meses em Miami, em padrões que se repetem o suficiente para não serem ilusões. Welcome home.
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